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Gémeos

Gémeos são dois ou mais irmãos que nascem num nascimento múltiplo, ou seja, de uma mesma gestação da mãe, podendo ser idênticos ou não. Por extensão, as crianças nascidas de partos triplos, quádruplos ou mais também são chamados de gémeos. Apesar de não haver uma estatística precisa, estima-se que uma em cada 85 gravidezes é gemelar. Existem duas maneiras de nascerem irmãos gémeos.

Gémeos Fraternos

Os gémeos fraternos são dizigóticos ou multivitelinos, ou seja, são formados a partir de dois óvulos. Nesse caso são produzidos dois ovócitos II e os dois são fecundados, formando assim, dois embriões. Quase sempre são formados em placentas diferentes e não dividem o saco amniótico. Os gémeos fraternos não se assemelham muito entre si, podem ter, ou não, o mesmo grupo sanguíneo e podem ser do mesmo sexo ou não. Também são conhecidos como gémeos diferentes. Na verdade são dois irmãos comuns que tiveram gestação coincidente. Representam 66% de todas as gestações gemelares, e neste tipo de gestação, 1/3 têm sexos diferentes, enquanto 2/3 têm o mesmo sexo. Um em cada um milhão de gémeos deste tipo têm cores diferentes, mesmo sendo do mesmo pai. É possível gémeos fraternos terem pais completamente diferentes.

Gémeos Idênticos

Quando um óvulo é produzido e fecundado por um só espermatozóide e se divide em duas culturas de células completas, dá origem aos gêmeos idênticos, ou monozigóticos, ou univitelinos. Sempre possuem o mesmo sexo. Os gémeos idênticos têm o mesmo genoma e são clones um do outro. Apenas 1/3 das gestações são de gémeos univitelinos. A gestação é difícil pelo facto de apenas 10% a 15% dos gémeos idênticos terem placentas diferentes; geralmente possuem a mesma placenta.

Gémeos xifópagos (siameses)

Os gémeos xifópagos, ou siameses, são monozigóticos, ou seja, formados a partir do mesmo zigoto. Porém nesse caso, o disco embrionário não chega a dividir-se por completo, produzindo gémeos que estarão ligados por uma parte do corpo, ou têm uma parte do corpo comum aos dois. O embrião de gémeos xifópagos é, então, constituído apenas por uma massa celular, sendo desenvolvido na mesma placenta, com o mesmo saco aminiótico. Estima-se que dentre 40 gestações gemelares monozigóticas, uma resulta em gémeos interligados por não separação completa.

Num outro tipo de gémeos xifópagos (hoje sabidamente mais comum) a união acontece depois, ou seja, são gémeos idênticos separados que se unem em alguma fase da gestação por partes semelhantes: cabeça com cabeça; abdômen com abdômen; nádegas com nádegas, etc. Quando vemos alguma notícia de gémeos que foram "separados" por cirurgia, trata-se, quase sempre, de um caso destes.

O termo "siameses" teve origem de uma famosa ocorrência registada em 1811: os gémeos Chang e Eng, que nasceram no Sião, Tailândia, colados pelo ombro. Eles casaram, tiveram 22 filhos e permaneceram unidos até o fim de seus dias.

Eles no mundo inteiro

O maior grau de gemelidade em que todos os bébes nasceram e se conservaram vivos é oito (óctuplos); no mundo inteiro, até agora, só foram registados dois grupos de óctuplos. Existe também conhecimento de que em 1971, em Sydney, uma mulher deu à luz nove bebés, no entanto, nenhum deles sobreviveu mais de seis dias. Existem vários relatos documentados no mundo. A gravidez de mais de dois conceptos representam 1% de todas as gravidezes gemelares. Podem ser idênticos, fraternos ou uma combinação dos dois tipos, meninos ou meninas. Recentemente uma mulher nos Estados Unidos deu a luz também óctuplos.

Gêmeos - 1 em 85

Trigêmeos - 1 em 7.225

Quadrigêmeos - 1 em 614.125

Quíntuplos - 1 em 52.200.625

Sêxtuplos - 1 em 4.437.053.125

Sétuplos - 1 em 377.149.515.625

Óctuplos - 1 em 32.057.708.828.125

Nascimento múltiplo

Trigémeos idênticos são extremamente raros: ocorre um caso em cada 6.400 nascimentos.

Um nascimento múltiplo ocorre quando mais que um feto nasce no final de uma só gravidez. Há diferentes nomes para nascimentos múltiplos, em função do número de nascituros. Nomes comuns para dois e três nascituros são os termos gémeos e trigémeos, respectivamente. Os gémeos, trigémeos e demais irmãos de nascimentos múltiplos ocorrem com frequências variáveis entre as espécies animais, embora o termo seja aplicável em especial a espécies de mamíferos com placenta bem desenvolvida.

Há dois tipos principais nos nascimentos múltiplos, os dizigóticos ou fraternos e os idênticos ou monozigóticos. Estes últimos ocorrem quando um só óvulo é fertilizado e o zigoto resultante se divide em mais que um embrião: deste modo os irmãos idênticos têm o mesmo material genético. Os irmãos dizigóticos resultam da fertilização e implantação de mais do que um óvulo, e assim não são geneticamente idênticos. Em alguns nascimentos múltiplos é possível que uma combinação destes aconteça (por exemplo, num grupo de trigémeos pode haver um bebé de um óvulo e outros dois gémeos idênticos de um segundo óvulo. Este caso designa-se como polizigótico.

A forma mais comum de nascimentos múltiplos nos seres humanos é a de gémeos (dois bebés), e a frequência típica de nascimentos múltiplos em outras espécies placentárias varia muito.

A frequência estatística de nascimentos múltiplos nos humanos tem crescido ao longo das últimas décadas. Actualmente rondará, para todo o mundo, o valor de:

  • Gémeos- 1:80
  • Trigémeos - 1:80² = 1:6400
  • Quadrigémeos e demais casos - 1:80³ = 1:512,000

De acordo com o serviço de recenseamento dos Estados Unidos em 1980, o número total de nascimentos múltiplos nesse país era de 69.676, tendo aumentado para 101.709 em 1995 (46% de aumento). Outros estudos indicam que a taxa de múltiplos tem crescido mais desde a data deste estudo. 1:6400

Associação Grupo Gémeos

A Associação Grupo Gémeos foi formalmente criada em Junho de 1996, embora já tenha existência informal há mais tempo.

Foi constituída como grupo para responder a uma necessidade crescente que foram tendo, por parte de alguns pais ou, mais concretamente, algumas mães, de falar sobre gémeos, de saber mais sobre gémeos, de dar a conhecer aos outros mais informações acerca de gémeos, de mostrar que ter gémeos não é "dramático", mas antes muito viável e… agradável.

É enorme a ânsia que uma mãe sente ao saber que vai ter gémeos, em perceber melhor o que se passa com o seu corpo - desde logo durante a gravidez -, o que significa tratar de dois ou mais bebés ao mesmo tempo, os desafios que se lhe colocam de forma especial por ter duas ou mais crianças com necessidades físicas e educacionais semelhantes ao mesmo tempo!

Se já cada filho é uma aventura diferente e tão especial, quando recebemos mais do que um de uma só vez sentimos que temos de nos preparar melhor. Não estamos perante crianças diferentes das outras (de uma forma geral não estamos perante crianças com formas de desenvolvimento e crescimento diferentes das outras…) o que temos é crianças que têm e terão experiências de vida muito especiais. Parece-me que não é impunemente que uma criança partilha o espaço mais íntimo que consigo imaginar (o útero da mãe) ao mesmo tempo! Não é impunemente que duas ou mais crianças são geradas ao mesmo tempo pela mãe! Nem é impunemente que vivem os primeiros tempos de contacto com o mundo em circunstâncias muito semelhantes! E isto é tão válido para os gémeos monozigóticos (gémeos iguais) como para os gémeos dizigóticos (gémeos diferentes. Por favor, não digam "gémeos falsos": de falso não têm eles nada, só não são é geneticamente tão parecidos!!!).

Mas sabemos que para muitos casais ter gémeos é um verdadeiro pesadelo: são os encargos financeiros a dobrar que surgem (não é a mesma coisa enfrentar as despesas de dois filhos nascidos separadamente de enfrentá-las com dois filhos nascidos em simultâneo! Nós sabemos como são importantes as economias de escala que fazemos em casa: o que deixa de servir a um passa para outro. Com gémeos, o mais frequente é que o que deixa de servir a um deixa de servir a ambos!). São as casas que não chegam para albergar as crianças; são os outros filhos que já existiam e "não dava jeito nenhum que viesse mais um quanto mais mais 2 ou 3"; são as questões logísticas a que é necessário atender (é possível sair à rua com um só bebé, mesmo que não haja dinheiro para o carrinho. Mas com dois… experimentem e contem-me!).

O Grupo Gémeos tem servido para, de alguma forma, acalmar um pouco estas famílias, desde logo tendo linhas telefónicas de apoio (no Porto: 22 208 57 37; 22 762 57 67; 22 762 81 45), promovendo donativos de equipamentos de sócios que dispensam os que já não usam, ou promovendo as vendas em 2ª mão; organizando encontros anuais em que trocamos experiências ou preocupações entre nós e em que ouvimos especialistas de diferentes áreas acerca de temas diversos.

Não imaginam como foi importante um encontro em que ouvimos psicólogos, educadores e professores e em que eles nos ouviram acerca da escolarização dos gémeos.

Surgem-nos frequentemente questões acerca de se devemos pô-los na mesma sala de aula; de se devemos promover a semelhança ou a diferença, de se os nomes devem ser parecidos ou não, dese a opção de os vestir de forma igual é a mais válida… Não há receitas… ou melhor, há apenas uma:  observem cada filho de per si, tomem as decisões atendendo à especificidade de cada um.

Tivemos, desde o início, o firme propósito de promover a existência de bibliografia sobre gémeos em português. Não existe quase nada… e o que há, neste momento, tem tido a "mãozinha" do GG.

Mensalmente é publicado na "Pais e Filhos" uma rubrica "Queridos Gémeos" que permite divulgar a associação e servir os pais de gémeos.

E… em Novembro passado, saiu o primeiro livro traduzido em português! É uma obra que tem tido grande impacto nos países de línguas inglesa e espanhola. O seu título é "Gémeos, Trigémeos e mais" ("Twins, Triplets and more” no original) e foi escrito por uma pediatra inglesa (Elisabeth Bryan) que por se ter apaixonado por tudo quanto se relaciona com gémeos fundou a Multiple Birth Foundation, a que estamos muito ligados. O livro é uma edição da Quarteto e está à venda nas livrarias. Esta é a primeira de um conjunto de obras que tentaremos pôr à disposição dos gémeos, dos pais e de outras pessoas interessadas nestas questões.

Fonte: Maria Lopes Cardoso - Grupo Gémos (Rua Oliveira Monteiro, 92-5ºC, 4040-438 Porto

Gémeos ganham com o investimento na individualidade

Vestidos de igual, sentados lado a lado na carteira da escola, a frequentar a mesma actividade desportiva, a brincar com brinquedos idênticos. É muito frequente ver os gémeos embrulhados nesta redoma da semelhança, com os pais, família e educadores a apostarem tanto nas parecenças entre as crianças que acabam por descurar as características individuais de cada um. Porque mesmo quando um parece o espelho do outro, os temperamentos e interesses podem ser diferentes.

A mensagem do Grupo Gémeos, associação portuguesa dedicada ao fenómeno da gemelaridade, é a de resistir à tentação do tratamento dois em um e investir na individualidade. Os benefícios deste trato pessoal e único com cada gémeo são significativos no que se refere à construção da sua identidade enquanto ser único e independente.

“Cada gémeo deverá crescer como indivíduo, capaz de funcionar independentemente do outro, ainda que valorizando o relacionamento com ele”, defende Isabel Seara, vice-presidente do Grupo Gémeos. A mensagem desta associação a todos os adultos que rodeiam as crianças gémeas é a de estimular a individualidade e estabelecer claramente as diferenças entre os bebés desde o nascimento. Usar roupas distintas, ou pelo menos de cores diferentes, ter brinquedos diversos ou dormir em berços separados são alguns dos conselhos da responsável do Grupo Gémeos. Para Isabel Seara são “estes pequenos gestos do quotidiano” que marcam a diferença no estímulo da individualidade. Cabe aos pais fazerem desta recomendação uma regra e transmitirem-na aos diversos adultos que desempenham um papel na vida das crianças gémeas.

Num folheto informativo do Grupo Gémeos, a associação defende ainda que “desde muito cedo, deve incentivar-se que os gémeos sejam separados por alguns momentos (embora possa ser um curto período, dependendo da sensibilidade e da reacção em cada caso)”. Até pela experiência da vida intra-uterina, as crianças com irmãos gémeos encaram com alguma estranheza a vivência da distância do outro. Enquanto que a ligação entre irmãos é um processo natural, a separação deve ser treinada. Em nome da criação de tempos de alguma solidão, em que a criança consiga explorar e desenvolver interesses, desejos e comportamentos que são só seus. Isabel Seara alerta para a crença, defendida por inúmeros psicólogos, de que é necessária uma certa dose de solidão para um crescimento salutar. “No fundo, os gémeos sentem frequentemente que nunca estão sozinhos. É quase como se houvesse uma perda do seu direito à privacidade”, acrescenta.

Outra tendência que deve ser contrariada pelos pais, familiares e educadores é a de referir-se às crianças como “os gémeos”. O investimento na individualidade passa também pela “regra do chamamento pelo nome próprio”, explica Isabel Seara. Uma regra a ser seguida não só pelos pais mas também nas creches e jardins-de-infância. Uma das sugestões da vice-presidente do Grupo Gémeos para os pais é “bordar o nome de cada um no bibe” de maneira a travar a tentação de alguns educadores de recorrer à chamada colectiva sob o apelido de “os gémeos”. Mesmo os nomes escolhidos não devem promover a confusão das identidades, chamando João Pedro a um e Pedro João ao outro, por exemplo.

A associação alerta para os perigos de lidar com os gémeos como uma entidade una e não como indivíduos distintos. O desejável é não reforçar “mecanismos de dependência que os gémeos estabelecem entre si” e educar para que cada irmão seja “capaz de fazer as suas próprias escolhas e de se realizar plenamente”, explica. Em vez de subjugar as diferenças num esforço de uniformização, o ideal ê que cada criança tenha a possibilidade de viver experiências distintas, ditadas também pelas suas preferências e interesses pessoais. Um conselho que ganha forma ao nível da ocupação dos tempos livres ou das actividades extracurriculares.

O desenvolvimento dos gémeos e dos bebés únicos é praticamente igual excepto no que se refere à linguagem, área onde os pares de irmãos podem registar algum atraso. Esta situação deve-se ao facto de os pais terem menos tempo para falar exclusivamente com cada filho e de os deixarem mais frequentemente entregues a “conversas” entre um e o outro. O estímulo para a aprendizagem é então menor tendo em conta que as crianças se encontram no mesmo estádio de crescimento. “É assim que se desenvolve, por vezes, a famosa ‘linguagem secreta’ dos gémeos, também chamada de criptofasia”, explica um folheto da associação.

Fonte: Texto de Ana Gomes - In: Pública – 15 Abril 2007

Parecidos, não iguais! 

João: maduro, independente e dono do seu nariz. Miguel: carinhoso, dependente e brincalhão. Ainda que com personalidades tão distintas, poucas são as pessoas que os conseguem distinguir. João e Miguel são gémeos e Margarida Ramalho, a mãe, diz que ainda hoje a médica a quem coube a tarefa de a informar que ia ter mais dois filhos «continua a lembrar-se da minha cara de espanto» perante a notícia. «Assegurou-me que dois eram de certeza, mas tinha dúvidas se não haveria um terceiro! A minha primeira reacção foi um misto de espanto e alegria. Cheguei a dizer que só podia estar a brincar, que a imagem da ecografia devia pertencer à grávida que tinha estado no consultório antes de mim». Mãe de Catarina, na altura com três anos, esta era uma gravidez desejada, mas não planeada. «Posso dizer que fiquei feliz, sempre disse que gostava de ter gémeos. Só não esperava tê-los na segunda gravidez».

Trocado o T2 por um espaçoso T4, foi já na casa nova que Margarida Ramalho, na altura com 34 anos, começou à procura de toda a informação disponível sobre gémeos. Com uma primeira gravidez problemática e descobertas novas complicações, teve muito tempo para pesquisar na internet tudo o que havia sobre o assunto. «Os problemas começaram a partir das 22 semanas, altura em que fiquei internada porque se iniciaram sinais de parto prematuro. Depois acabei por ter de fazer repouso até ao final da gravidez, já que as contracções continuavam». Refeita do susto, cedo se apercebeu de que a informação disponível sobre o tema era escassa. «Só encontrava as diferenças entre gémeos monozigóticos e dizigóticos, mas queria saber como dar de mamar, o que fazer quando chorassem com fome ao mesmo tempo, como estabelecer as rotinas diárias, enfim, como cuidar de gémeos», lembra.

Foi esta mesma falta de informação que levou três mães de gémeos (Maria Lopes Cardoso, Clara Paulino e Josephine Carrapato) a criar, há 16 anos, a Associação Grupo Gémeos. «Quando fiquei grávida das minhas filhas não havia qualquer tipo de informação. Sempre tive imensa bibliografia estrangeira, podia considerar-me uma privilegiada por ler em outras línguas», recorda a professora universitária de Linguística que começou por tentar não sair da sua área profissional ao estudar alguns problemas que, por vezes, surgem associados à linguagem, principalmente nos gémeos monozigóticos (ver caixa), nomeadamente com os códigos que desenvolvem entre si e que nenhum adulto entende.

O Grupo Gémeos não descansou enquanto não viu traduzida para português uma das obras que muitos consideram a verdadeira bíblia: «Gémeos, Trigémeos e Mais», da pediatra inglesa Elizabeth Bryan. «Os primeiros anos da educação dos gémeos são sempre complicados, não dão espaço para muita coisa. As minhas filhas nasceram em 1992 e a Associação só foi constituída em 1996. Nessa altura, uma amiga também ficou grávida de gémeos e sentimos a necessidade de criar um grupo, primeiro para debater as questões – porque é mais fácil perguntar a quem já tem experiência - e colmatar a falta de bibliografia em português», explica Isabel Seara.

Formalizada a associação da qual Isabel Seara é vice-presidente, além da publicação da obra de Elizabeth Bryan, foi igualmente editada uma colectânea de crónicas de Clara Paulino, publicadas mensalmente na revista PAIS & Filhos, e que deu origem ao livro Danças com Gémeos. «Acho que é interessante porque abarca todas as idades e isso sempre foi um dos aspectos pelos quais lutei: a investigação sobre gémeos em Portugal, tal como as conferências e os colóquios, são todos muito centrados na gravidez e na primeira infância. E porquê? Porque a gravidez de gémeos tem muitos mitos, ou porque vão nascer prematuros ou de cesariana. As minhas filhas nasceram de parto normal, há imensas grávidas de gémeos que têm partos normais», revela Isabel. Daí encarar o livro «Gémeos, Trigémeos e Mais» como «a bíblia sobre gémeos. Não se limita à gravidez e aos problemas iniciais. Aborda os desafios a nível da educação e da vida depois da primeira infância. É aí que reside a nossa intenção de ajudar, de alertar os pais, os tios, os avós, os educadores e os professores da necessidade de encararem os gémeos como pessoas únicas e singulares».

ESPELHO MEU...

Desde que nasceram, há três anos, que João e Miguel não se vestem de igual, são tratados pelo próprio nome e geralmente recebem presentes de aniversário distintos. Mas Margarida Ramalho reconhece que não foi fácil transmitir todas estas ideias à família. «Quando dizia que não os queria vestir de igual ou pedia que lhes dessem prendas diferentes, para aprenderem a partilhar, a maioria achava que estava a exagerar. Mas todos nós gostamos de ter a nossa individualidade e procuro estimular isso neles. Já basta eles serem iguais. Vestidos da mesma maneira seria como olhar para um espelho 24 horas por dia. Penso que ninguém iria gostar disso». Para os pais que acham mais fácil comprar duas camisolas ou dois pares de calças, Margarida Ramalho revela o seu truque: «O que normalmente faço é vesti-los com roupas semelhantes. Por exemplo, as camisolas são iguais, mas a cor é diferente e assim eles conseguem distinguir a roupa de um e do outro».

Mas por que é tão importante para o desenvolvimento dos gémeos serem tratados como indivíduos? «Chegou-se à conclusão que quando os gémeos não são incentivados a ter alguma autonomia tornam-se pessoas com muitos problemas, porque uma das primeiras condições para se tornar autónoma é ter a sua individualidade. Se não a tiver e se não for ajudada a construí-la, nunca sabe o que quer ser na vida, com quem há-de viver, como construir relações com os outros que não o irmão gémeo», explica Isabel Seara. Margarida Ramalho não podia estar mais de acordo. «Acho fundamental estimular essa individualidade. No meu caso é mais fácil porque o João e o Miguel são duas pessoas com feitios completamente diferentes que, mais cedo ou mais tarde, vão seguir caminhos distintos», considera.

E quanto aos pais que insistem que são as crianças que se querem vestir de igual? «Aí são os pais que se demitem da educação dos filhos. Este é o problema da sociedade contemporânea: a falta de exercício da autoridade. Há uma inversão de valores enquanto os progenitores não conseguirem assumir que, mais do que serem amigos dos filhos, têm o dever de exercer a sua autoridade. Isso acontece com os gémeos e com os outros filhos», esclarece Isabel Seara, que aconselha os pais a estimular a individualidade. «Como? Se um gostar de uma coisa e outro de outra, isso deve ser respeitado. Por exemplo, as minhas filhas são muito diferentes. Ao contrário da Margarida, a Beatriz não apreciava bonecas, gostava mais de brincar com jogos de construção. Sempre respeitei e cada uma tinha os seus gostos». Até a questão dos bolos de aniversário não deve ser esquecida. «Nas festas de anos há sempre um só bolo porque são gémeos. É a festa dos gémeos e isso traz marcas profundas», alerta. 

ESTUDAR NA MESMA ESCOLA

No jardim-de-infância, João e Miguel são vulgarmente conhecidos como os gémeos uma vez que poucas são as educadoras que os conseguem distinguir. «Há quem os trate dessa forma, mas peço sempre às professoras para não o fazerem, para usarem os nomes próprios. Este ano até foram colocados em grupos diferentes e na mesa do refeitório também não estão juntos», diz Margarida.

A questão que se coloca é se os gémeos devem ser separados durante a educação, se devem estar em turmas ou até em escolas diferentes. Isabel Seara reconhece que hoje em dia é mais simples para os pais colocarem os filhos na mesma escola. «As minhas filhas partilharam a mesma turma e nunca houve problema». Mas sempre foi a primeira a incentivar a diferenciação. «Há professores que durante o ano inteiro não fazem o mínimo esforço. Há um grande trabalho a fazer junto dos educadores e professores porque além dos gémeos não terem nome - são sempre conhecidos como os gémeos - outro factor prejudicial no crescimento intelectual é a eterna comparação feita na avaliação. Eu não quero saber se uma das minhas filhas sabe mais que a outra, não faz sentido e isso inferioriza. Há sempre um mais abaixo que outro».

Ensinadas a serem independentes uma da outra, Margarida e Beatriz têm cada uma o seu namorado e amigos em comum. «Sinto que ao longo dos anos, mesmo tendo incentivado essa individualidade, elas sentem mais necessidade de se demarcar. Enquanto uma escolheu o violoncelo, a outra preferiu a flauta transversal. Acima de tudo, o que defendo é que cada um deve ser estimulado a ser uma pessoa livre, independente, autónoma, capaz de construir por si só o seu percurso,a sua vida, depender dos seus interesses, o que não é possível se estiver sempre o outro por perto».

DE FILHO ÚNICO A IRMÃO MAIS VELHO

Catarina tinha apenas três anos quando tudo se alterou ao seu redor: deixou de ser filha única para passar a ter de partilhar a atenção da família com os irmãos gémeos. «Ela ressentiu-se um pouco. Era filha única, neta única, sobrinha única e, de repente, teve de dividir a atenção não com um, mas com dois irmãos», recorda Margarida. Nestes casos, os especialistas alertam para o risco de o irmão mais velho se sentir isolado. É que os gémeos formam um par, os pais são um par e ele é o único sozinho. Para que tal não aconteça, e para suavizar a chegada dos gémeos, um padrinho, uma madrinha, um tio ou uma avó podem fazer o papel de amigo especial. Por certo que os resultados vão ser positivos se essa pessoa convidar o irmão mais velho para um passeio juntos, se lhe enviar postais ou, simplesmente, quando fizer uma visita à casa centrar toda a sua atenção nele e não nos bebés.

Os ciúmes também podem ser contornados caso os filhos mais velhos sejam encorajados a participar nos cuidados dos mais novos. Apesar do choque, Margarida garante que «os três são muito unidos. Em relação a eles, ela tem um grande sentido protector, mas a cumplicidade entre os gémeos é maior que dela para com eles». E por falar em cumplicidade, Isabel Seara recorda o caso extremo de duas irmãs gémeas de 65 anos que conheceu durante as gravações de um programa televisivo. «São muito divertidas, mas a vivência delas é muito singular. Vestem-se completamente de igual, são ambas casadas, vivem em casas iguais, uma por cima da outra, têm filhos e falam deles como se fossem de ambas». Um verdadeiro caso de estudo na opinião da professora universitária. «Uma começa uma frase e a outra acaba-a, há um mecanismo de complementaridade que nunca achei ser possível. Elas são felizes, mas querem morrer na mesma altura, não se imaginam uma sem a outra».

Isabel Seara encara o seu caso como uma bênção. Teve uma primeira gravidez que viveu naturalmente com as maiores expectativas, mas a Carolina viria a morrer pouco tempo depois, o que foi uma grande provação. «Posteriormente nasceram a Margarida e a Beatriz e foi uma compensação divina. Todos dizem que ter gémeos é um acréscimo de trabalho, de despesas, mas também tem muitas compensações e nunca ninguém fala disso. É necessário encontrar sempre o lado optimista».

Mitos ou realidade?

"Já tinha algum caso na família?» é uma das típicas perguntas que as mães de gémeos estão habituadas a ouvir. O que a maioria não sabe é que a existência de gravidezes gemelares na árvore genealógica tem alguma incidência, mas não tanta como se julga. "A influência é maior nos gémeos monozigóticos e hoje em dia a taxa elevada de gravidez gemelar revela-se com maior incidência nos dizigóticos", esclarece Isabel Seara. "Pode ter alguma influência, mas não tanta quanto se pensa".

É igualmente um mito associar impereterivelmente a gravidez de gémeos a cesarianas ou bebés prematuros. «Como as crianças têm um perímetro encefálico mais pequeno, passam muito melhor no colo uterino. Claro que não quer dizer que não tenha de haver cuidados pré-natais específicos quando são prematuros». De acordo com Teresinha Simões, ginecologista e obstetra responsável pela consulta de gravidez múltipla na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa, «o principal risco de uma gravidez gemelar é o parto prematuro (tem seis vezes maior risco) e os bebés terem baixo peso à nascença – cerca de três vezes mais».

A sintonia entre irmãos gémeos, isto é, se sentem a mesma dor mesmo quando estão separados, é igualmente uma ideia preconcebida. «Na maior parte das vezes é um mito, são teorias muito pouco comprovadas. De tudo o que li, e esta é das ideias que o Grupo Gémeos tenta transmitir, o meio físico e social onde vivem tem uma grande influência sobre os gémeos», defende Isabel Seara.

Multiplicação de gémeos

Segundo Teresinha Simões, responsável pela consulta de gravidez múltipla na Maternidade Alfredo da Costa, «desde 1970 que se tem verificado um aumento enorme na taxa de gravidezes múltiplas. Em França, entre 1970 e 1998, a taxa de gémeos aumentou 50 a 60% e a de gravidezes triplas subiu 300%. Em Inglaterra, o aumento foi 430% e nos EUA de 696%». Para a especialista, o aumento dos números «deve-se não só ao facto de as mulheres engravidarem mais tarde, mas fundamentalmente aos tratamentos cada vez mais frequentes de reprodução assistida».

Monozigóticos ou dizigóticos?

Tal como dois irmãos aparentemente iguais, também a designação dos dois diferentes tipos de gémeos pode causar confusão. Os gémeos idênticos – ou monozigóticos – são tão parecidos que até podem baralhar os próprios pais. Têm um aspecto físico muito semelhante uma vez que partilham os mesmos genes. Têm igualmente os mesmos cromossomas sexuais, pelo que são sempre do mesmo sexo. O que acontece é que o ovo é fecundado pelo espermatozóide e a divisão celular, em duas partes iguais, é feita a posteriori. São chamados monozigóticos porque só existe um zigoto, que é o mesmo que dizer um óvulo fertilizado. São mais raros que os gémeos fraternos – ou dizigóticos – concebidos quando, num ciclo menstrual normal, a mãe produz dois óvulos e ambos são fertilizados (dois zigotos). Apesar de serem fecundados pelo mesmo espermatozóide, cada ovo tem uma carga genética diferente, como dois irmãos com 20 anos de diferença. Podem ter, ou não, o mesmo grupo sanguíneo ou o mesmo sexo.

Emprestar a quem mais precisa

Além de conseguir alargar o período de licença de parto de cinco para seis meses, a Associação Grupo Gémeos também se esforça por dar apoio às famílias com maiores dificuldades. «Ter gémeos é algo fascinante, mas existem famílias carenciadas para as quais o anúncio do nascimento de gémeos pode ser algo problemático». É aqui que entra em acção o espírito de partilha. «Emprestamos aqueles bens de primeira infância mais caros, como os carrinhos de bebés, dispendiosos e com um tempo de utilização muito curto. Não damos para que outras pessoas também possam servir-se mais tarde, mas emprestamos num espírito solidário e de partilha que queremos implementar», explica Isabel Seara.
Grupo Gémeos: 21 301 24 84

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Para quem tem três ou mais, aconselhamos a leitura do site

Associação Portuguesa de Famílias Numerosas

(clique na imagem para aceder ao site)